Que frieza reveste a nova platina
Blindada pela tepidez luminosa
Por onde tímida se filtra a claridade

Esculpe teu silêncio
Que o flagrante desconhecimento cresce
Deixando lúcido o arder das coisas frias
Perto essa noite
Longe meu dia.

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Eu ando por aí. Aprendi tarde. Sei bem como trocar os passos, me direcionar para algum lugar aleatório; normalmente o único que eu não deveria estar. Eu também não deveria estar sentada, esperando, que alguma coisa mude em mim. Não tento mais. Cansei cedo.

“Um enorme espaço vazio entre o que eu sou e o que eu deveria ter sido”

A parte que eu calo, por excelência, me faz humana;
uma vez que a ausência por não não externar as coisas;
é precisamente o que me destrói e me delimita.

Nunca foi

Foi se espiar pelo lado de fora e não se reconheceu.

Inventou de virar ausência e

ainda vivendo

parou de ser.

Quem sabe se enquanto ainda fosse parasse então de viver?

Acabaria logo com o essa falta de saber

reconhecer o que é ser

parando de sobreviver.

 

 

Caminhei durante horas para cansar-me; buscar a fadiga pra tentar eliminar os pensamentos. Parei quando percebi que de nada adiantava, que como signo da solidão, o frio me serviu de cenário para os pesadelos que me acompanham. Sentei-me sobre o parapeito de um viaduto e, estática, absorvi o magnetismo do vazio.

[Ouvindo: Cícero – Pelo Telefone]

Se minha mente fosse o acaso, me jogaria nos teus braços todos os dias. Sem dó e sem contexto. Meu agora tem limite pra todos os lados. Das 6 da manhã às 10 da noite eu vivo sob o signo do não-tem-nada-de-novo-pra-mim. E a cada pessoa desinteressante que aparece, engulo mais um sapo, às vezes ainda sou abrigada a ruminar. Torço para que o viver no depois não seja essa existência domada, essa briguinha de aguenta-ou-não.  Uns chamam isso de paciência, outros gritam com uma raiva indecifrável pra eu parar de sentir pena de mim. Já eu me abstenho de definições.

 

[Arctic Monkeys – Only ones who know]

Se minha mente fosse o acaso, me jogaria

O velho modo de viver em uma esteira

Sua graça não caminha mais pela minha casa; Ela se move blindada em cada distração. Insignificantes são as coisas que não entram na cabeça e ficam nas estantes; Livros esquecidos. Ou todas as outras coisas que continuam no mesmo lugar; Assim como eu.  Aqui.  Onde o travesseiro ainda é travesseiro, e a TV televisão. Pela falta da tua presença em carne, junto meus ossos e digo teu nome em voz baixa; não pro teto ou pra janela, mas pra porta. Fixando ali a tua existência, voltando do banho, refletindo em cada prisma a tua presença inúmeras vezes, numa hesitação infantil. 

 

[Alex Turner   It’s Hard To Get Around The Wind]

 

Há de se aguentar

Quantos dias choramingando você acha que seriam necessários para consolar a mortalidade e destruir a si mesmo sem arrependimentos?

Acontece que qualquer palavra tem ar de súplica e toda música chega com som de bossa-nova-da-depressão quando se vê de fora. E a não ser que haja uma identificação de sofrimento do mesmo jeito-humano-clichê, é tudo exagero de “gente que não se valoriza”.

Por favor, Manuel Bandeira não ficava brincando de poesia sem rima. Todo mundo sabe que tem mais graça nas vontades do que nos interesses.

[Ouvindo: Radiohead – High & Dry]

Consciência, é você sim

Grita

essa voz

e sempre

essa voz

de dentro pra fora

porque eu sou tu

e ele

e nós

e todo mundo

não é nada.

 

[Ouvindo: The Kinks – Strangers]

 

Só posso ser feliz quando descosturar o cérebro do coração
Poder dar alento para caminhar
Com as pernas
E não com o peito

Amor perfeito pra mim é uma flor
Lilás
Serena
Cheia de mitologias

Já tristeza é um bando de outras coisas:
Descobrir a solidão
De não ser suficiente pra fazer um ser humano feliz
Enquanto ele é uma única e instantânea flechada de felicidade pra você
Ou
Saber que devo ir embora
Mas não conseguir carregar minha própria carcaça.

[Ouvindo: Cartola – A vida é um moinho]