Arquivo mensal: abril 2012

Sem unhas, sem título

Tenho alimentado diversas ânsias, que incluem desde fuçar em textos antigos até esbarrar sem querer em você no buteco, mesmo que não exista nenhuma possibilidade sequer de você conhecer o lugar, nenhuma chance de uma imagem sua ali e eu esteja ainda no quarto, me preparando pra sair.

Tenho roído as unhas e também a vontade de te arrancar dos sonhos, te achar na rua, na minha cama ou na sua, crua. Rôo tanto que só tenho carne agora.

Quero que você cheque todas as portas e janelas, que tenha cuidado para deixar cada fresta aberta, sem medo da chuva.

[Air – Playground Love]

Bordão

Vem…
Larga tua vida, rotina, namoro, mas vem…
Vem e muda minha vida, rotina, namoro…

“Eu sei o que eu quero”, penso
Penso tanto que acordo falando
Que antes de dormir eu repito
E quando levanto às 4 pra dizer
Tenho certeza que quero
Em carne e osso, eu sei o que eu quero
Em corpo e alma
Seja lá o que signifique alma, eu sei o que eu quero
Eu sei.

[Chico Buarque – Romance]

Me calo

Não penses que apaguei a memória de quando fomos felizes juntas, por alguns minutos. Não penses que apaguei a memória das nossas manhãs no super mercardo, de mais ou menos uma década atrás. Mas me Calo.

Não penses, nem por um segundo, que não me esforço para achar uma lembrança, um aniversário, uma música no volume máximo que cantávamos juntas, com coreografia e tudo mais. Mas me calo.

Não penses que já não me sentia sufocada desde a sua barriga, que ainda não me sinto.
Não penses que não tenho vontade de te perguntar se quando nasci o cordão umbilical estava em volta do meu pescoço, ou se ele ainda está. Mas me calo.

Não penses que não tento deixar de lado a negação e dar continuidade nos assuntos que tentamos criar, mas não consigo.

Então me calo.

[Glen Hansard – Lies]

Sua setlist agora é minha

Talvez eu pudesse te dizer tudo isso, talvez eu devesse, antes de mais nada, me dizer. Mas acho que esse calor e esse sol que mais crema do que queima e essas noites eternas e quentes e suadas – não por contato físico, pelo contrário, pela falta dele. Pensei em escrever, mas já não sei em que língua ainda sei sentir.

Se em um fragmento de conversa ouvi seu endereço, casualmente ou não, presto atenção como nunca naquela rua, pesco cada ser andando na avenida e penso “Imagina se você entra no ônibus agora e me vê jogando block’d no celular”, o quão ridículo seria o momento em que eu diria “o jeito que você move o lábio inferior para falar ‘crocked’ me fascina”, o quão ridícula sou eu…eu fascinando algo já tão fascinado, tão ocupado.

“Deve haver um porto”, li um dia em algum livro talvez brasileiro inglês espanhol ou português. Deve haver, repeti. Haverá. Eis a tragédia da vida. Não havia mais espaço para faltas de sentido.

[Don’t Wake Me Up – The Hush Sound]